Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 28 de maio de 2017

Hilda Hilst - Passeio 15 - Trajetória Poética do Ser

O problema de re(construir) a si próprio tendo o próximo como espelho, numa espiral que promove o surgimento de uma treva perpétua de dor, da qual resulta a construção de realidades amenas voltadas apenas a satisfazer uns “olhos duros”: eis o infortúnio que inquieta a poetisa...

E tal perspectiva também é válida para os outros em relação a cada um de nós: os olhos que nos contemplam esperam reciprocidade, levando à exaustão os nossos mananciais e reforçando a espiral que nos cerceia a liberdade plena.

J.A.R. – H.C.

Hilda Hilst
(1930-2004)

Passeio 15 - Trajetória Poética do Ser

De delicadezas me construo. Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.

Um Mundo no Íntimo
(Jim Warren: artista norte-americano)

Referência:

HILST, Hilda. Passeio 51 - Trajetória poética do ser. Exercícios. In: __________. Uma superfície de gelo ancorada no riso: antologia de Hilda Hilst. Seleção, organização e apresentação de Luisa Destri. São Paulo, SP: Globo, 2012. p. 52.

sábado, 27 de maio de 2017

W. S. Merwin - Para o Aniversário de Minha Morte

Neste refinado poema, o tema da morte é abordado de uma forma assaz abstrata, conceitual, quase como uma prédica dominical, sem deixar de fluir com naturalidade, em meio à lírica surrealista que o autor adota.

O eu lírico se reporta aos fogos que o saudarão no momento de sua partida para a eternidade, e depois de um longo silêncio que se compara a um feixe de luz de uma estrela já extinta, a cortar o domínio espaço x tempo, não mais estará preso às contingências deste plano.

Então o canto da corruíra pontuará nos ares após um episódio diluviano: aqui estará o poeta diante do sagrado, curvando-se ante a inefabilidade de todas as tentativas para se compendiar o que quer que sejam a vida, a morte e o divino.

J.A.R. – H.C.

W. S. Merwin
(n. 1927)

For the Anniversary of My Death

Every year without knowing it I have passed the day
When the last fires will wave to me
And the silence will set out
Tireless traveler
Like the beam of a lightless star

Then I will no longer
Find myself in life as in a strange garment
Surprised at the earth
And the love of one woman
And the shamelessness of men
As today writing after three days of rain
Hearing the wren sing and the falling cease
And bowing not knowing to what

Caminho Sinalizado
(James Coleman: artista norte-americano)

Para o Aniversário de Minha Morte

A cada ano sem o saber tenho passado pelo dia
Em que os últimos fogos me saudarão
E o silêncio aflorará
Viajante incansável
Como o feixe de uma estrela sem luz

Então já não me
Encontrarei em vida como numa roupa estranha
Surpreendido pela terra
O amor de uma mulher
E a indignidade dos homens
Como hoje a escrever após três dias de chuva
Ouvindo o canto da corruíra e o cessar do vendaval
E a inclinar-me sem saber ante o quê

Referência:

MERWIN, W. S. For the anniversary of my death. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary american poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House Inc.), march 2003. p. 258-259.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Bertolt Brecht - Aos que Vão Nascer

Este poema, visualmente apresentado como três seções interconectadas com claras modulações marxistas, foi escrito em 1939 por Brecht, na Dinamarca, para onde ele havia partido, em fuga do regime nazista, então a promover um catálogo de indignidades.

As suas estrofes, sobretudo as derradeiras, estão carregadas de pesar e ansiedade. Desapontado, recorre à posteridade para que pondere, antes de condenar a sua geração, sobre as terríveis circunstâncias vividas pelo povo alemão naquele momento, instrumentalizado por uma ideologia destrutiva.

J.A.R. – H.C.

Bertolt Brecht
(1898-1956)

An die Nachgeborenen

I

Wirklich, ichlebe in finsterenZeiten!
Das argloseWortisttöricht. EineglatteStirn
Deutet auf Unempfindlichkeithin. Der Lachende
Hat die furchtbareNachricht
Nurnochnichtempfangen.

Was sind das fürZeiten, wo
EinGesprächüberBäume fast einVerbrechenist
Weil eseinSchweigenüber so vieleUntateneinschließt!
Der dortruhigüber die Straßegeht
Istwohlnichtmehrerreichbarfür seine Freunde
Die in Not sind?

Esistwahr: ichverdienenochmeinenUnterhalt
Aber glaubtmir: das istnureinZufall. Nichts
Von dem, was ichtue, berechtigtmichdazu, michsattzuessen.
Zufällig bin ichverschont. (Wennmein Glück aussetzt, bin ichverloren.)

Man sagtmir: Iß und trink du! Sei froh, daßduhast!
Aber wiekannichessen und trinken, wenn
Ich den Hungerndenentreiße, was ichesse, und
Mein GlasWassereinemVerdurstendenfehlt?
Und dochesseundtrinkeich.

Ichwäregerneauchweise.
In den altenBüchernsteht, was weiseist:
SichausdemStreit der Welt halten und die kurzeZeit
OhneFurchtverbringen
AuchohneGewaltauskommen
BösesmitGutemvergelten
Seine Wünschenichterfüllen, sondernvergessen
Gilt fürweise.
Alles das kannichnicht:
Wirklich, ichlebe in finsterenZeiten!

II

In die StädtekamichzurZeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kamichzurZeit des Aufruhrs
Und ichempörtemichmitihnen.
So verging meineZeit
Die auf Erdenmirgegeben war.

Mein Essen aßichzwischen den Schlachten
Schlafenlegteichmichunter die Mörder
Der Liebepflegteichachtlos
Und die NatursahichohneGeduld.
So verging meineZeit
Die auf Erdenmirgegeben war.

Die Straßenführten in den SumpfzumeinerZeit.
Die SpracheverrietmichdemSchlächter.
Ichvermochtenurwenig.Aber dieHerrschenden
Saßenohnemichsicherer, das hoffteich.
So verging meineZeit
Die auf Erdenmirgegeben war.

Die Kräftewarengering. Das Ziel
Lag in großerFerne
Es war deutlichsichtbar, wennauchfürmich
Kaumzuerreichen.
So verging meineZeit
Die auf Erdenmirgegeben war.

III

Ihr, die ihrauftauchenwerdetaus der Flut
In der wiruntergegangensind
Gedenkt
Wennihr von unserenSchwächensprecht
Auch der finsterenZeit
Der ihrentronnenseid.
Gingenwirdoch, öfterals die Schuhe die Länderwechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nun Unrecht war und keineEmpörung.

Dabeiwissenwirdoch:
Auch der Haßgegen das Unrecht
Macht die Stimmeheiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereitenwolltenfürFreundlichkeit
Konntenselbernichtfreundlich sein.

Ihraber, wennes so weit sein wird
Daß der Mensch dem Menschen einHelferist
Gedenktunsrer
MitNachsicht.

No Futuro
(Carol G. Armstrong: artista norte-americana)

Aos que Vão Nascer

I

Realmente, eu vivo num tempo sombrio.
A inocente palavra é um despropósito. Uma fronte sem ruga
denota insensibilidade. Quem está rindo
é só porque não recebeu ainda
a notícia terrível.

Que tempo é este em que
uma conversa sobre árvores chega a ser falta,
pois implica silenciar sobre tantos crimes?
Esse que vai cruzando a rua, calmamente,
então já não está ao alcance dos amigos
necessitados?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Porém, acreditai-me: é puro acaso. Nada
do que faço me dá direito a isso, de comer a fartar-me.
Por acaso me poupam. (Se minha sorte acaba,
estou perdido.)

Dizem-me: – Vai comendo e vai bebendo! Alegra-te com o que tens!
Mas como hei de comer e beber, se
o que eu como é tirado a quem tem fome, e
meu copo d’água falta a quem tem sede?
Contudo eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser um sábio.
Nos velhos livros consta o que é sabedoria:
manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve
deixar correr sem medo.
Também saber passar sem violência,
pagar o mal com o bem,
os próprios desejos não realizar e sim esquecer,
conta-se como sabedoria.
Não posso nada disso:
realmente, eu vivo num tempo sombrio!

II

Às cidades cheguei em tempo de desordem,
com a fome imperando.
Junto aos homens cheguei em tempo de tumulto
e me rebelei com eles.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minha comida mastiguei entre refregas.
Para dormir deitei-me entre assassinos.
O amor eu exercia sem cuidado
e olhava sem paciência a natureza.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

As ruas do meu tempo iam dar no atoleiro.
A fala denunciava-me ao carrasco.
Bem pouco podia eu, mas os mandões
sem mim sentiam-se mais garantidos, eu esperava.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

Minguadas eram as forças. E a meta
ficava a grande distância;
claramente visível, conquanto para mim
difícil de alcançar.
Assim passou-se o tempo
que sobre a terra me foi concedido.

III

Vós, que vireis na crista da maré
em que nos afogamos,
pensai,
quando falardes em nossas fraquezas,
também no tempo sombrio
a que escapastes.

Vínhamos nós então mudando de país mais do que de sapatos,
em meio às lutas de classes, desesperados,
enquanto apenas injustiça havia e revolta nenhuma.

E entretanto sabíamos:
também o ódio à baixeza
endurece as feições,
também a raiva contra a injustiça
torna mais rouca a voz. Ah, e nós,
que pretendíamos preparar o terreno para a amizade,
nem bons amigos nós mesmos pudemos ser.
Mas vós, quando chegar a ocasião
de ser o homem um parceiro para o homem,
pensai em nós
com simpatia.

Referências:

Em Alemão

BRECHT, Bertolt. An die nachgeborenen. In: PROOST, Kristel; WINKLER, Edeltraud (Hrsg.). Von intentionalität zur bedeutung konventionalisierter zeichen: festschrift für Gisela Harras zum 65º geburtstag. Tübingen, GE: Gunter Narr Verlag, 2006. s. 258-260. (‘Studien zur Deutschen Sprache’ - Forschungen des Instituts für Deutsche Sprache)

Em Português

BRECHT, Bertolt. Aos que vão nascer. Tradução de Geir Campos. In: GULLAR, Ferreira (Organização e Traduções). O prazer do poema: uma antologia pessoal. Rio de Janeiro, RJ: Edições de Janeiro, 2014. p. 250-253.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Cecília Meireles - Noções

Navego e navego por mares de palavras muito bem declinadas, por poemas e discursos maravilhosamente construídos, mas isso, que é bastante, não me é suficiente – e bem mais eu quero! (Será que houve em minha alocução plágio velado ou inconsciente de algum poema de Álvaro de Campos? rs).

Por isso sempre regresso às origens, aos autore(a)s que me foram apresentado(a)s ainda no começo da adolescência, por professores com quem hoje já não topamos por aí, meus queridos e queridas onde quer que se encontrem, possivelmente abraçados ao Eterno...

E claro, Cecília Meireles está no rol desses autore(a)s: a sua poesia me cala fundo n’alma, porque eu a expressar o que me vai no interno não o faria tão bem quanto ela. Como naquela letra do compositor Tunai, em melodia de Milton Nascimento (com interpolações minhas): “Certas canções que ouço [como certos poemas que leio] / Cabem tão dentro de mim / Que perguntar carece / Como não fui eu que as [os] fiz?”.

Certas Canções
(Tunais & Milton Nascimento)

J.A.R. – H.C.

Cecília Meireles
(1901-1964)

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento
que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e
contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares
contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...

A Corrente do Golfo
(Winslow Homer: pintor norte-americano)

Referência:

MEIRELES, Cecília. Noções. In: __________. Cecília de bolso: uma antologia poética. Organização e apresentação de Fabrício Carpinejar. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014. p. 35-36. (Coleção ‘L&PM Pocket; v. 700)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

James Wright - Uma Benção

Como uma benção, a visão de um casal de pôneis indígenas transpõe o poeta ao limiar de uma experiência fora do corpo: em equilíbrio com a natureza, os animais à volta se comprazem em ver os dois amigos passeando por ali – e vice-versa.

Temos aí a natureza como um antídoto contra a solidão, na medida em que é capaz de remediar o sofrimento e oferecer vislumbres do verdadeiro amor. Há, ademais, muitos que creem num poder espiritual que conecta todos os seres: pessoas, animais e plantas. Logo, “sair do corpo para irromper em flor” faz todo o sentido sob tal perspectiva mística!

J.A.R. – H.C.

James Wright
(1927-1980)

A Blessing

Just off the highway to Rochester, Minnesota,
Twilight bounds softly forth on the grass.
And the eyes of those two Indian ponies
Darken with kindness.
They have come gladly out of the willows
To welcome my friend and me.
We step over the barbed wire into the pasture
Where they have been grazing all day, alone.
They ripple tensely, they can hardly contain their happiness
That we have come.
They bow shyly as wet swans. They love each other.
There is no loneliness like theirs.
At home once more,
They begin munching the young tufts of spring in the darkness.
I would like to hold the slenderer one in my arms,
For she has walked over to me
And nuzzled my left hand.
She is black and white,
Her mane falls wild on her forehead,
And the light breeze moves me to caress her long ear
That is delicate as the skin over a girl’s wrist.
Suddenly I realize
That if I stepped out of my body I would break
Into blossom.

Dois Cavalos Indígenas
(Bev Doolittle: artista norte-americana)

Uma Benção

No desvio da estrada que leva a Rochester, Minnesota,
Os limites do crepúsculo avançam suavemente sobre a grama.
E os olhos daqueles dois pôneis indígenas
Escurecem com delicadeza.
Surgiram alegremente de entre os salgueiros
Para nos dar as boas vindas, a meu amigo e a mim.
Transpomos o arame farpado em direção ao prado
Onde eles estiveram o dia todo a pastar, sozinhos.
Agitam-se tensamente, mal conseguindo conter a felicidade
Por havermos despontado.
Curvam-se timidamente como cisnes molhados. Amam-se mutuamente.
Não há solidão como a deles.
No lar mais uma vez,
Começam a mastigar os novos tufos da primavera na escuridão.
Gostaria de envolver em meus braços o mais esbelto,
Pois ela veio até mim
E roçou o focinho em minha mão esquerda.
É preta e branca,
A crina lhe cai selvagem sobre a fronte,
E a brisa leve incita-me a acariciar sua longa orelha
Tão delicada quanto a pele do pulso de uma menina.
De repente me dou conta
De que se saísse do meu corpo irromperia
Em flor.

Referência:

WRIGHT, James. A blessing. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary ‎‎american poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of ‎‎Random House Inc.), march 2003. p. 291.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Tahar Ben Jelloun - As amendoeiras feridas morreram

De tão devastador e pungente, resolvi transcrever a seção inteira do poema em epígrafe, de autoria de Tahar Bem Jelloun, escritor, ensaísta e, acima de tudo, poeta marroquino que escreve em francês, como abaixo se constata.

Em epístola direcionada a um dos filhos – que não se sabe exatamente onde se encontra, nem mesmo se está vivo –, o pai descreve os momentos então vivenciados por sua família no âmbito do conflito árabe-israelense, quando uma aldeia inteira – a de Yamit – foi devastada pelas forças israelenses, sendo expulsos dali os seus habitantes, e a área anexada ao Estado de Israel.

Claro está que o texto deve ser lido literariamente e não se pretende que seja fidedigno à história de fato ocorrida, no exato momento em que Israel expandia o seu domínio sobre áreas as quais, em absoluto, se achavam destituídas de habitantes – palestinos, no caso –, tal como sustenta de modo contundente o autor de “A Indústria do Holocausto”, Norman G. Finkelstein, em sua obra “Imagem e Realidade do Conflito Israel - Palestina”, publicada no Brasil pela editora Record: uma investigação para espíritos fortes!  

J.A.R. – H.C.

Tahar Ben Jelloun
(n. 1944)

Les amandiers sont morts de leurs blessures

À Leïla Shahid

La Trouée de Rafah, village du nord-est du Sinaï, vient d’être détruite par les Israéliens, après que ses habitants arabes en ont été chassés. Un de ces hommes écrit à son fils.

Mon fils,

Le jour s’est arrêté dans mes rides depuis que leur machine sanglante et grise est passée sur notre maison. Elle est formidable cette voiture immense qui ouvre sa gueule pour happer le peu de chose qui nous restait: un lopin de terre, un toit et trois amandiers. C’est une machine qui fait du bruit, brille au soleil et éclate en rire saccadé quand elle triomphe des petites fleurs sauvages et fragiles qui essaient de se relever. J’ai vu ses dents jaunies par le sang de la terre se briser sur un tas de sable. Un petit vent a emporté les racines de l’arbre. Le ciel s’est baissé et les a ramassées; je crois même qu’elles habitent un petit nuage têtu qui ne nous quitte plus depuis que nous sommes sans toit, sans patrie. Ton petit frère a couru pour sauver de la poussière lourde tes livres d’écolier. Nous avons eu peur. La machine a failli l’avaler.

Blessés dans notre terre, humiliés dans nos arbres, nous étions là tous les trois, figés et habités par une mort soudaine. Une partie de nous-mêmes, je crois la plus grande, est meurtrie; ils nous l’ont arrachée tout naturellement, à l’aube. Nous sommes restés tranquilles; ils ont ouvert nos plaies et nous avons bu notre mort. Elle a le goût de la sève; ta mère dit qu’elle a le parfum du jasmin. Le ciel s’est ouvert à l’appel de l’oiseau orphelin, et nous avons aperçu un corps de lumière couvert de sang neuf. Le soleil trébuchait ce jour-là, car l’injustice froide creusait son sillon dans notre terre, notre corps.

Notre mémoire percée d’étoiles n’avait plus de citadelle: elle devenait enceinte de nouvelles blessures. En 1948, tu n’étais pas encore né. La guerre a traversé notre champ. L’olivier était calciné. Notre destin était terni par la misère, mais il avait la rage de l’espoir. Certains sont partis avec une tente pour tout bagage, d’autres sont morts.

Aujourd’hui, mon fils, nous ne savons pas où tu es. Où que tu sois, sache que nous ne sommes pas tristes. On nous dit que nos maisons sont inutiles et que nos amandiers sont ridicules. On nous dit que sur cette terre s’élèvera une ville, une ville moderne. Elle aura de belles avenues, des autobus et des chars. Elle ira jusqu’à la Méditerranée et s’appellera Yamit. Leurs machines perfectionnées avancent, avancent. Nos voisins ont reçu des cartes vertes. Ils peuvent rester chez eux quelques jours encore. Tu sais, le petit village d’Abou-Chanar, lui aussi va être détruit. La machine sanglante et grise avance, avance. On nous dit qu’il faut laisser la place à des hommes venus de loin, de très loin, des juifs venus de la Russie, mon fils.

Notre bagage est léger: un sac de farine et peu d’olives. La foudre peut descendre. Elle foulera les sables mêlés de pierres brisées et d’arbustes abattus. Elle tombera dans le vide, étranglée par les serpents de la haine. Tu te rends compte, mon fils, ils demandent aux enfants de cette terre de venir la travailler pour le compte des “nouveaux propriétaires”! C’est la seule fois où j’ai pleuré. Je sais, tu n’aimes pas les larmes; excuse-moi si les miennes ont coulé. Mais la honte s’est amassée dans mon corps comme les pierres, comme les jours, comme les prières.

Notre terre battue par l’acier qui écrase les petits lézards, je la vois sur ton front comme une étoile, un rêve urgent qui nous rassemble. Tout change de nom. La main métallique efface les écritures sur nos corps. Des racines d’arbres attestent. Nous n’avons pas besoin de stèle. Notre mémoire est un peu de sable suspendu à la lumière. Elle est haute entre tes doigts. Nous t’embrassons où que tu sois.

❁❁❁

Quel oiseau ivre naîtra de ton absence
toi la main du couchant mêlée à mon rire
et la larme devenue diamant
monte sur la paupière du jour
c’est ton front que je dessine
dans le vol de la lumière
et ton regard
s’en va
sur la vague retournée
un soir de sable
mon corps n’est plus ce miroir qui danse
alors je me souviens

tu te rappelles
toi l’enfant née d’une gazelle
le rêve balbutiait en nous
son chant éphémère
le vent et l’automne dans une petite solitude
je te disais
laisse tes pieds nus sur la terre mouillée
une rue blanche
et un arbre
seront ma mémoire
donne tes yeux à l’horizon qui chante

ma main
suspend la chevelure de la mer
et frôle ta nuque
mais tu trembles dans le miroir de mon corps
nuage
ma voix
te porte vers le jardin d’arbres argentés

c’était un printemps ouvert sur le ciel
il m’a donné une enfant
une enfant qui pleure
une étoile scindée
et mon désir se sépare du jour
je le ramasse dans une feuille de papier
et m’en vais cacher la folie
dans un roc de solitude

(Poèmes par amour)

❁❁❁

Blanche l’absence
comme une mort lointaine
en ce jour où l’astre de l’oubli
se posera sur l’herbe mouillée d’une mémoire froissée

Je te vois chantée par les matins
enfants nés des sables

Et l’oiseau me dit
elle est syllabe à prononcer doucement
entre une pensée et un rire
et si le regard s’absente
laisse-toi prendre entre les doigts du soleil
va suspendre le rêve aux tresses de la nuit
et ramasse les étoiles qui ne sont plus du ciel
tiens la main fertile quand tu penses à la citadelle de ce
corps fragile

Eclipse
et
silence
des pierres tourmentées

(Poèmes par amour)

Amendoeira em Flor
(Pierre Bonnard: pintor francês)

As amendoeiras feridas morreram

Para Leila Shahid

Rafah, aldeia ao nordeste do Sinai, acaba de ser destruída pelos israelitas, após a expulsão de seus habitantes árabes. Um desses homens escreveu ao seu filho.

Meu filho,

O dia parou nas minhas rugas desde o momento em que a máquina sangrenta e cinza deles passou sobre nossa casa. É impressionante esse veículo imenso que abre sua garganta para tragar as poucas coisas que nos restavam: um pedaço de terra, um teto e três amendoeiras. É uma máquina que faz barulho, brilha ao sol e explode em gargalhadas quando triunfa sobre as pequenas flores selvagens e frágeis que tentam se reerguer. Vi seus dentes amarelados pelo sangue da terra se quebrarem sobre um monte de areia. Uma brisa levou as raízes da árvore. O céu se abaixou e as recolheu; acho até que elas moram numa pequena nuvem obstinada que não nos deixa mais desde que ficamos sem teto, sem pátria. Teu irmãozinho correu para tirar da poeira pesada os teus livros de escola. Ficamos com medo. A máquina quase o engoliu.

Feridos em nossa terra, humilhados em nossas árvores, lá estávamos nós três, paralisados e habitados por uma morte repentina. Uma parte de nós mesmos, creio que a maior dela, foi assassinada; eles nos arrancaram tudo naturalmente, na madrugada. Ficamos tranquilos; eles abriram nossas chagas e bebemos nossa morte. Ela tem o gosta da seiva; tua mãe diz que ela tem perfume de jasmim. O céu se abriu ao chamado do pássaro órfão, e notamos um corpo de luz coberto de sangue novo. O sol tropeçou naquele dia, pois a injustiça fria cavou seu veio em nossa terra, nosso corpo.

Nossa memória fendida por estrelas não possuía mais cidadela; ela engravidou de novas feridas. Em 1948, tu não havias ainda nascido. A guerra atravessou nosso campo. A oliveira estava calcinada. Nosso destino murchou com a miséria, mas ele tinha raiva da esperança. Alguns partiram levando uma tenda como bagagem, outros morreram.

Hoje, meu filho, nós não sabemos onde estás. Onde quer que estejas, saiba que não estamos tristes. Disseram-nos que nossas casas são inúteis e que nossas amendoeiras são ridículas. Disseram-nos que sobre essa terra se elevará uma cidade, uma cidade moderna. Ela terá belas avenidas, ônibus e carros. Ela irá até o Mediterrâneo e se chamará Yamit. Suas máquinas aperfeiçoadas avançam, avançam. Nossos vizinhos receberam sinal verde. Eles podem ficar em casa alguns dias ainda. Sabe, a cidadezinha de Abu-Chanar, ela também será destruída. A máquina sangrenta e cinza avança e avança. Disseram-nos que é preciso abrir espaço para os homens vindos de longe, de muito longe, judeus vindos da Rússia, meu filho.

Nossa bagagem é leve: um saco de farinha e um pouco de azeitonas. O raio pode cair. Ele revolverá as areias misturadas com as pedras despedaçadas e os arbustos derrubados. Ele cairá no vazio, estrangulado pelas serpentes do ódio. Imagine, meu filho, eles pedem às crianças dessa terra para virem trabalhar por conta dos “novos proprietários”! Foi a única vez que chorei. Eu sei, tu não gostas de lágrimas; desculpa-me se as minhas caíram. Mas a vergonha as reuniu em meu corpo como pedras, como os dias, como as preces.

Nossa terra surrada pelo aço que esmaga as lagartixas, eu a vejo sobre tua fronte como uma estrela, um sonho urgente que nos reúne. Tudo muda de nome. A mão metálica apaga a escrita sobre nossos corpos. Raízes de árvores o atestam. Nós não precisamos de estela. Nossa memória é um pouco de areia suspensa à luz. Ela é altiva entre teus dedos. Nós te beijamos, filho, onde quer que estejas.

❁❁❁

Que pássaro ébrio nascerá da tua ausência
tu a mão do poente misturada ao meu riso
e a lágrima transmutada em diamante
galga a pálpebra do dia
é a tua fronte que eu desenho
no voo da luz
e teu olhar
se vai
sobre a onda que voltou
uma noite de areia
meu corpo não é mais esse espelho que dança
então me lembro.

tu te lembras
tu criança nascida de uma gazela
o sonho balbuciava em nós
seu canto efêmero
o vento e o outono numa solidão
eu te dizia
deixe teus pés nus sobre a terra molhada
uma rua branca
e uma árvore
serão minha memória
dá os teus olhos ao horizonte que canta
minha mão
suspende a cabeleira do mar
e roça tua nuca
mas tu tremes no espelho do meu corpo
nuvem
minha voz
te leva rumo ao jardim de árvores prateadas

era uma primavera aberta sobre o céu
ele me deu uma criança
uma criança que chora
uma estrela dividida
e meu desejo se separa do dia
eu o recolho numa folha de papel
e vou esconder a loucura
num rochedo de solidão

❁❁❁

Branca a ausência
qual morte longínqua
nesse dia em que o astro do esquecimento
pousará sobre a erva molhada de uma memória
envelhecida

Eu te vejo cantada pelas manhãs
meninos nascidos das areias

E o pássaro me diz
ela é silaba a pronunciar suavemente
entre um pensamento e um riso
e se o olhar se ausenta
deixa-te tomar entre os dedos do sol
vai dependurar o sonho nas tranças da noite
e recolhe as estrelas que não são mais do céu
segura a mão fértil quando pensares na cidadela deste
corpo frágil

Eclipse
e
silêncio
das pedras atormentadas

Referência:

JELLOUN, Tahar Ben. Les amandiers sont morts de leurs blessures / As amendoeiras feridas morreram. Tradução de Cláudia Falluh Balduino Ferreira. In: __________. As cicatrizes de Atlas. Seleção, tradução e introdução de Cláudia Falluh Balduino Ferreira. Brasília, DF: Editora UnB, 2003. Em francês: p. 16, 18, 20, 22, 24 e 26; em português: p. 17, 19, 21, 23, 25 e 27. (Coleção ‘Poetas do Mundo’)