Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Ânuar Fares - Poema ao Soldado Desconhecido Que não o dos ‎Monumentos

Muito distante das honras costumeiramente atribuídas aos soldados mortos em guerras ao redor do mundo, o poeta deplora as ações desses mesmos soldados, que lhe parecem refletir o nonsense dos conflitos bélicos em apreço, mais espelhando os interesses de nações imperialistas em busca de dominância, quer econômica quer de outras ordens, na geopolítica mundial.

Os soldados, a seu ver, deixam-se levar por interesses que não são os seus ou os do próximo, abrutalhando-se quando de posse de armamentos, dizimando, muitas vezes, populações que nada têm a ver com o conflito, a exemplo do ocorrido nas reprováveis incursões norte-americanas em território vietnamita.

J.A.R. – H.C.

Tumba do Soldado Desconhecido
Ottawa (CA)

Poema ao Soldado Desconhecido
Que não o dos Monumentos

Os homens arrancaram-te a consciência
E automatizaram os teus nervos.
Então, tu não te emocionaste
Quando abriste o peito do teu irmão,
Quando invadiste os lares
E o ventre das virgens.
Tu ficaste na lembrança apavorada
Das crianças a quem mataste os pais,
A quem destruíste os asilos,
A quem atiraste ao mar o pão.
Tu também tens um monumento
Nos olhos espantados dos órfãos,
Nos corpos mutilados dos teus irmãos,
Nos filhos que, inconscientemente,
Deixaste germinando na maldição e no pranto
das mulheres violentadas.
Soldado Desconhecido
Os homens arrancaram-te a consciência
E automatizaram os teus nervos.
Que bem não te fariam
Se te arrancassem a memória!

Tumba do Soldado Desconhecido
Virgínia (EUA)

Referência:

FARES, Ânuar. Poema ao soldado desconhecido que não o dos monumentos. In: JORGE, J. G. de Araújo (Comp.). Antologia da nova poesia brasileira. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Ltda., 1948. p. 39-40.

domingo, 21 de janeiro de 2018

W. B. Yeats - Versos Escritos na Prostração

Tendo chegado aos cinquenta anos, parece-me que o autor irlandês se põe a questionar se, nessa idade, ainda pode o homem continuar sonhando – e tanto pior se com insofismáveis quimeras. E com o impulso criativo atenuado – afinal, a lua já então se desvaneceu – o poeta lamenta o descaminho de sua criatividade.

Aqui estão, lado a lado, as imagens arquetípicas da lua – a presidir a imaginação – e do sol – a reger o mundo físico. Assim, de sua condição fantasista na primeira idade, tem agora Yeats que suportar um estado mental depreciado e cabisbaixo.

J.A.R. – H.C.

W. B. Yeats
(1865-1939)

Lines Written in Dejection

When have I last looked on
The round green eyes and the long wavering bodies
Of the dark leopards of the moon?
All the wild witches, those most noble ladies,
For all their broom-sticks and their tears,
Their angry tears, are gone.
The holy centaurs of the hills are vanished;
I have nothing but the embittered sun;
Banished heroic mother moon and vanished,
And now that I have come to fifty years
I must endure the timid sun.

A Dama e o Dragão
(Catherine Chauloux: artista francesa)

Versos Escritos na Prostração

Quando foi que avistei pela última vez
Os redondos olhos verdes e os corpos esguios e ondulantes
Dos leopardos escuros da lua?
Todas as feiticeiras selvagens, aquelas nobilíssimas senhoras,
Por todas as suas vassouras e lágrimas,
Suas raivosas lágrimas, se foram.
Os centauros sagrados das colinas desapareceram;
Já nada tenho senão o amargurado sol;
Banida e desvanecida a heroica mãe lua,
E havendo eu chegado aos cinquenta anos,
Tenho que sujeitar-me ao tímido sol.

Referência:

YEATS, W. B. Lines written in dejection. In: __________. Collected poems: complete & unabridged. Whit a introduction by Robert Mighall. London, EN: Macmillan, 2016. p. 207. (“Macmillan Collector’s Library”; v. 13)

sábado, 20 de janeiro de 2018

Marie-Laure David - Silêncio ‎

Tal como o poema postado na última quinta-feira, esta poesia também adota o silêncio como tema, embora, distintamente daquele, as miradas privilegiadas descrevem ocorrências que se passam muito provavelmente num bosque, e não no núcleo urbano.

Ela avança em linhas que reforçam o teor dos versos que as precedem, num fluir sem efeitos elípticos ou complexidades, tão transparente ao leitor que quase não permite superposições de escólios que divirjam de um núcleo comum, destinado, pois, ao consenso.

J.A.R. – H.C.

Menina Com Uma Flor
(Jacob Gerritszoon Cuyp: pintor holandês)

Le Silence

Si l’on s’arrète pour entendre
Pour entendre le silence
L’on entendra un bourdonnement
Un bourdonnement de silence.

D ’une étoile de la nuit tombera une vague lueur
Pour éclairer le silence, le silence des silences.
Un lapin s’arrêtera, s’arrêtera indécis
Troublé par la voix majestueuse du silence
II cherchera son terrier, son terrier forestier
Et dans l’ombre de la nuit il ne le trouvera pas.
Un sapin s’endormira sous les branches de sa mère
Sous les branches de sa mère s’endormira,
Et d’une voix suave le silence chantera
Les louanges du silence.

Sequoias Vermelhas Gigantes da Califórnia
(Albert Bierstadt: pintor germano-americano)

O Silêncio

Se a gente para a fim de escutar
A fim de escutar o silêncio
A gente ouve um zumbido
Um zumbido de silêncio.

De uma estrela da noite cai um vago clarão
Para clarear o silêncio, o silêncio dos silêncios.
Um coelho se detém, se detém indeciso
Perturbado pela voz majestosa do silêncio
Ele procura sua toca, sua toca na mata
E na sombra da noite não a encontra.
Um pinheiro adormece sob os braços de sua mãe
Sobre os braços de sua mãe ele adormece
E numa voz suave o silêncio canta
Os louvores do silêncio.

Nota de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães:

A tradução do poema “Silence” de Marie-Laure David foi publicada no final do artigo “Poesia de França”, que saiu no Correio da Manhã de 20 de junho de 1948. O artigo comenta a antologia Poètes d’aujourd’hui (1947), organizada por Dominique Aury e Jean Paulhan, na qual se encontra o poema traduzido. A autora é referida como sendo uma menina de dez anos – era neta de Jules Supervielle e veio a publicar alguns livros (ANDRADE, 2001, p. 396).

Referência:

DAVID, Marie-Laure. Le silence / O silêncio. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia traduzida. Organização e notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães. Introdução de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2011. Em francês: p. 128; em português: p. 129. (Coleção “Ás de colete”; 20)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Armindo Trevisan - Interiorano ‎

O poeta, somente com o passamento de seu bichano – atropelado na rua em frente à sua casa –, assimilou a visão de que a vida vale muito mais do que a secular sabedoria dos homens que se põem a legislar sobre o agir de seus pares, isso porque o espírito vital tem precedência sobre todos os seres a quem serve de princípio gerador.

E mais: a dizimar não apenas os gatos, mas também os próprios homens, anda por aí um rol pernóstico de algozes, a quem se poderia replicar a máxima cristã: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão”. (Mateus 7:5)

J.A.R. – H.C.

Armindo Trevisan
(n. 1933)

Interiorano

Chorei a primeira vez
quando meu gato morreu
atropelado na rua fronteira
à minha casa.

Foi a primeira vez que chorei
com liberdade – não
infringindo hábitos
sociais.

Chorei porque meu gato
morreu e compreendi,
naquele instante sem futuro,
que qualquer ser vivo valia
mais do que a sabedoria
dos homens que legislam
sobre a vida.

Hoje, sinto-me solitário
na vastidão do planeta!

Parece-me que os gatos
desapareceram, ou foram adotados
por homens, que se converteram
em seus algozes
e, mais frequentemente,
em nossos algozes.

Em: “O Relincho do Cavalo Adormecido”

O Gato Morto
(Theodore Gericault: pintor francês)

Referência:

TREVISAN, Armindo. Interiorano. In: __________. Adega imaginária & O relincho do cavalo adormecido. 1. ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2013. p. 174.
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

W. S. Di Piero - Esse é o Momento

Lá pelas tantas da madrugada, na denominada calada da noite, o poeta experimenta em seus ouvidos a inércia dos ruídos que fazem a sequência das horas do dia, lembranças que surgem como ecos a reverberar, ainda que, de fato, poucos sejam os sons audíveis, como o barulho do refrigerador ou o rumorejar das árvores a balançar.

Imagino que, na terceira estrofe do poema – se outro não for o sentido –, o poeta alude ao personagem Cherubino (Querubim), da ópera “As Bodas de Fígaro”, de Mozart, o qual, em uma das árias, afirma que o amor lhe revolve o espírito, quer esteja acordado quer sonhando, e todas as suas exortações levam-nas para longe as fontes e os ventos.

J.A.R. – H.C.

W. S. Di Piero
(n. 1945)

It’s That Time

The silence of night hours
is never really silent.
You hear the air,
even when it doesn’t stir.
It’s a memory of the day.
Nothing stirs. Memory lags.
No traffic hushing up
and down tricky hills
among the camphor trees.

No foghorns, no streetcars’
shrilling phantoms before
they emerge from tunnels.
These absences keep us alert.
No rain or street voices,
nobody calling to someone else,
Hannah, you walk the dog
tonight yet or what?

Only certain things to hear:
The sexy shifting of trees,
the refrigerator buzzing
while Cherubino sings
the best of love is enthusiasm’s
intense abandon, a voice
in song that preys on no one
and is unconscious of its joy.

O Silêncio da Noite
(Johan Knutson: pintor sueco)

Esse é o Momento

A calada das horas noturnas
nunca é realmente silenciosa.
Você escuta o ar,
mesmo quando não se move.
É uma recordação do dia.
Nada se agita. A recordação protrai-se.
Nenhum tráfego sibilante no sobe e
desce rumo às intricadas colinas
entre as canforeiras.

Nenhuma sirene de névoa, nem estridulantes
espectros de trólebus antes
que emerjam dos túneis.
Nenhuma chuva ou vozes de rua,
Essas ausências mantêm-nos alerta.
Ninguém ligando para outra pessoa,
Hannah, você leva o cão para passear
ainda esta noite?

Apenas certas coisas para ouvir:
o movimento sensual das árvores,
o zumbido do refrigerador,
enquanto o Cherubino entoa
que o melhor do amor é o intenso
abandono do entusiasmo, uma voz
na canção, inconsciente de sua alegria
e que a ninguém perturba.

Referência:

DI PIERO, W. S. It’s that time. Poetry Magazine,Chicago, IL: Poetry Foundation, v. 198, n. 1, p. 25, apr. 2011.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

E. E. Cummings - Talvez não seja sempre assim

Sem manter o tão característico atrevimento tipográfico do original de Cummings, o afamado bibliófilo brasileiro apresenta, em sua obra compendiadora, esta bela tradução do poema em epígrafe, que pressagia a perda de um amor e o seu consectário – o pesar da separação.

Da possibilidade de a companheira do poeta encontrar um outro amor – e imagino que Cummings não esteja se referindo apenas a um parceiro sexual –, roubando-lhe por conseguinte o coração, o autor passa a descrever, na segunda parte do poema, a resposta que daria a esse dilema, vale dizer, preferindo vê-la feliz com outro homem, já que retê-la sem que o ame seria um mal maior.

J.A.R. – H.C.

E. E. Cummings
(1894-1962)

It may not always be so

It may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another’s, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another’s face your sweet hair lay
in such a silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be –
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.

Matiz de Pensamentos Sombrios
(Cyril Rolando: artista francês)

Talvez não seja sempre assim

Talvez não seja sempre assim; e assim te digo
Que se teus lábios, que eu amei, tocarem noutros,
E teus dedos, fortes e queridos, agarrarem
Um outro coração, como ao meu em tempo não remoto;
Se no rosto de outro tua doce cabeleira se esparzir
No silêncio que tão bem conheço, ou entre grandes
Palavras sofredoras, que exprimindo demais em seu murmúrio,
Impotentes se alinham ante o espírito acuado;

Se isto se der, se isto se der, repito
Tu que és tão minha, não o escondas de mim:
Para que eu possa ir a ele, e, tomando-lhe as mãos,
Dizer, Aceita de mim esta ventura toda.
Depois eu voltarei meu rosto, e ouvirei um pássaro
Cantar terrivelmente longe nas regiões perdidas.

Referência:

CUMMINGS, E. E. It may not always be so / Talvez não seja sempre assim. Tradução de José Mindlin. In: MINDLIN, José. Uma vida entre livros: reencontros com o tempo. Prefácio de Antonio Candido. São Paulo, SP: Edusp; Companhia das Letras, 1997. Em inglês: p. 210; em português: 211.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Walmir Ayala - Arte Poética ‎

Redigir poemas, para o poeta, parece-se com o que ocorre a qualquer um, sem que haja compromisso sério com os resultados da ação ou da inércia, como os fatos naturalísticos do que há no entorno, mediação casual entre as forças vivas e inorgânicas sobre a terra.

Assim, o vate incorpora ao seu próprio “modus vivendi” o ato mesmo de criação das suas composições poéticas, quase as equiparando aos elementos fisiológicos da existência, regulação e metabolismo das vibrações universais de tudo quanto ousa expressar o bem, o belo e o verdadeiro.

J.A.R. – H.C.

Walmir Ayala
(1933-1991)

Arte Poética

A Jorge Octavio Mourão

Faço poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes como o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
nas águas, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
registra, como o dedo segue
a linha da leitura, como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas às vezes faço poema erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste e quer morrer, assim
faço poema, às vezes.

Faço poema sempre como vivo.

Em: “Antologia Poética”;
Editora Leitura. Rio, 1965.

Jovem a Escrever
(Jean-Louis E. Meissonier: pintor francês)

Referência:

AYALA, Walmir. Arte poética. In: BANDEIRA, Manuel; AYALA, Walmir (Orgs.). Antologia dos poetas brasileiros: fase moderna; depois do modernismo. Rio de Janeiro, GB: Edições de Ouro & Tecnoprint, 1967. p. 192-193.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Rosario Castellanos - A Casa Vazia ‎

Decerto a poetisa mexicana refere-se, neste poema plasmado de reminiscências, aos momentos em que viveu, ainda pequena, na casa dos pais, rodeada por árvores junto aos muros que a circundavam, possivelmente com mais de um andar, haja vista a menção às escadas, que agora “dormem”.

A criança que nela residia, presentemente a própria Rosario, lembra-se das tranças gêmeas nos cabelos, e como se lhe atribuíram a missão de manter as janelas da casa fechadas, contingência que incutiu-lhe a imagem de todo um universo reduzido ao ambiente cinzento do interior do lar, o qual, de todo modo, não logrou preservá-la entre as suas quatro paredes!

J.A.R. – H.C.

Rosario Castellanos
(1925-1974)

La Casa Vacía

Yo recuerdo una casa que he dejado.
Ahora está vacía.
Las cortinas se mecen con el viento,
golpean las maderas tercamente
contra los muros viejos.
En el jardín, donde la hierba empieza
a derramar su imperio,
en las salas de muebles enfundados,
en espejos desiertos
camina, se desliza la soledad calzada
de silencioso y blando terciopelo.

Aquí donde su pie marca la huella,
en este corredor profundo y apagado
crecía una muchacha, levantaba
su cuerpo de ciprés esbelto y triste.

(A su espalda crecían sus dos trenzas
igual que dos gemelos ángeles de la guarda.
Sus manos nunca hicieron otra cosa
más que cerrar ventanas.)

Adolescencia gris con vocación de sombra,
con destino de muerte:
las escaleras duermen, se derrumba
la casa que no supo detenerte.

En: “De la Vigilia Estéril” (1950)

Nostalgia
(Vasil Vasilev: artista búlgaro)

A Casa Vazia

Recordo uma casa que deixei.
Agora está vazia.
As cortinas se mexem com o vento,
os lenhos chocam-se obstinadamente
contra os velhos muros.
No jardim, onde a grama começa
a derramar seu império,
nas salas de móveis recobertos,
em espelhos desertos
caminha, desliza a solidão calçada
de silencioso e macio veludo.

Aqui onde o seu pé deixa o rastro,
neste corredor profundo e apagado,
uma menina crescia, levantava
o seu corpo de cipreste esbelto e triste.

(Às costas alongavam-se suas duas tranças,
que nem dois anjos da guarda gêmeos.
Suas mãos nunca fizeram outra coisa
senão fechar janelas.)

Adolescência gris com vocação de sombra,
com destino de morte:
dormem as escadas, arruína-se
a casa que não soube deter-te.

Referência:

CASTELLANOS, Rosario. La casa vacía. In: __________. Poesía no eres tu: obra poética – 1948-1971. 2. ed. México, DF: Fondo de Cultura Económica, 1975. p. 51-52. (“Letras Mexicanas”)

domingo, 14 de janeiro de 2018

Christina Rossetti - Canção ‎

Para este famoso poema da poetisa inglesa, o poeta Manuel Bandeira, como se nota, apresenta uma espécie da paráfrase e não exatamente uma tradução que se aproxime do literal. Mas pouco importa: o que vale é a beleza, a fluidez e a musicalidade dos versos.

Christina e o seu amado, ainda vivos, são as duas figuras entre as quais a mensagem do poema se desenrola. Contudo, a poetisa antevê a própria morte e, para tal estado, enfatiza sentimentos distintos em cada uma das estrofes: na primeira, propõe a dispensa do luto em razão de seu iminente falecimento; na segunda, lastima a ausência de experiências pungentes que somente em vida podem ser apreciadas.

J.A.R. – H.C.

Christina Rossetti
(1830-1894)
Pintura de Dante Charles Gabriel Rossetti

Song

When I am dead, my dearest,
Sing no sad songs for me;
Plant thou no roses at my head,
Nor shady cypress tree:
Be the green grass above me
With showers and dewdrops wet;
And if thou wilt, remember,
And if thou wilt, forget.

I shall not see the shadows,
I shall not feel the rain;
I shall not hear the nightingale
Sing on, as if in pain:
And dreaming through the twilight
That doth not rise nor set,
Haply I may remember,
And haply may forget.

A Morte da Jovem
(Jakub Schikaneder: pintor tcheco)

Canção

Em minha sepultura,
Ó meu amor, não plantes
Nem cipreste nem rosas;
Nem tristemente cantes.
Sê como a erva dos túmulos
Que o orvalho umedece.
E se quiseres, lembra-te;
Se quiseres, esquece.

Eu, não verei as sombras
Quando a tarde baixar;
Não ouvirei de noite
O rouxinol cantar.
Sonhando em meu crepúsculo,
Sem sentir, sem sofrer,
Talvez possa lembrar-me,
Talvez possa esquecer.

Referências:

Em Inglês

ROSSETTI, Christina. Song. In: __________. Poems and prose. Edited with na Introduction and Notes by Simon Humphries. Oxford, NY: Oxford University Press, 2008. p. 21-22. (“Oxford World’s Classics”)

Em Português

ROSSETTI, Christina. Canção. In: BANDEIRA, Manuel. Poemas traduzidos. 3. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956. p. 143. (Coleção “Rubáiyát”).